Por trás do humor, uma batalha silenciosa: Felca revela fobia social e fala sobre anos de isolamento
Influenciador contou que experiências de bullying durante a adolescência deixaram marcas profundas e contribuíram para um quadro de transtorno de ansiedade social.
Redação · Repórter
Publicado em ·7 min de leitura
Influenciador contou que experiências de bullying durante a adolescência deixaram marcas profundas e contribuíram para um quadro de transtorno de ansiedade social.
Relato expõe uma condição que vai muito além da timidez e pode comprometer relações, trabalho e atividades simples do cotidiano.
Por trás do humor, das câmeras e dos milhões de seguidores, Felca revelou uma realidade muito diferente daquela que o público costuma enxergar na internet.
O influenciador Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, retornou ao YouTube nesta terça-feira, 20 de outubro, com um depoimento pessoal sobre o diagnóstico de fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social.
Durante o vídeo, ele contou que passou anos convivendo com medo intenso de interações sociais, isolamento e dificuldades para realizar atividades que, para muitas pessoas, fazem parte da rotina.
Felca relacionou parte desse sofrimento às experiências de bullying físico e psicológico que afirma ter enfrentado durante aproximadamente oito anos no período escolar, em Londrina, no Paraná.
A história chama atenção justamente pelo contraste.
Enquanto milhões de pessoas conheciam a figura irreverente diante das câmeras, fora delas havia alguém que, segundo o próprio relato, enfrentava enorme dificuldade simplesmente para estar entre outras pessoas.
“Fobia social” não é apenas vergonha ou timidez
O termo pode parecer simples, mas descreve uma condição de saúde mental potencialmente incapacitante.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o transtorno de ansiedade social entre os transtornos de ansiedade. A condição envolve medo e preocupação intensos em situações sociais nas quais a pessoa acredita que poderá ser julgada, humilhada, rejeitada ou avaliada negativamente por outras pessoas. Organização Mundial da Saúde
O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos, o NIMH, explica que esse medo pode aparecer em situações aparentemente comuns: conversar com desconhecidos, falar diante de outras pessoas, frequentar ambientes públicos, pedir ajuda ou participar de atividades sociais. Instituto Nacional de Saúde Mental
Não se trata, portanto, simplesmente de “ser tímido”.
Para caracterizar um transtorno, o medo e a ansiedade precisam ser persistentes e suficientemente intensos para provocar sofrimento relevante ou prejudicar áreas da vida como escola, trabalho, relações familiares e convívio social. Instituto Nacional de Saúde Mental
Felca diz que bullying deixou marcas profundas
No relato publicado nesta terça-feira, Felca descreveu uma adolescência marcada por episódios repetidos de bullying.
Segundo o influenciador, as experiências contribuíram para que situações sociais fossem associadas ao medo de exposição, julgamento e rejeição.
Esse tipo de relação é possível, embora não seja automática.
Especialistas destacam que experiências traumáticas, estresse e fatores ambientais podem participar do desenvolvimento do transtorno, mas pessoas expostas ao bullying não necessariamente desenvolverão fobia social. Aspectos individuais e biológicos também estão envolvidos.
É justamente essa diferença que impede explicações simplistas.
O transtorno não possui uma causa única.
Quando sair de casa se transforma em sofrimento
Uma das partes mais dolorosas do relato é perceber como o transtorno pode reduzir gradualmente o espaço ocupado pela pessoa no mundo.
Felca contou que passou períodos prolongados praticamente sem sair de casa e que situações envolvendo gravações, eventos e contato com outras pessoas se tornaram extremamente difíceis.
Esse comportamento é compatível com uma característica conhecida do transtorno de ansiedade social: a evitação.
A pessoa começa a evitar aquilo que provoca medo. No curto prazo, ficar distante daquela situação pode gerar alívio. Com o tempo, porém, a própria evitação pode contribuir para a manutenção da ansiedade e aumentar o isolamento.
O resultado pode afetar estudo, trabalho, amizades e relacionamentos.
Há pessoas que desejam conversar, frequentar determinados lugares ou participar de atividades, mas sentem um medo tão intenso do julgamento alheio que acabam desistindo.
Os sintomas também podem aparecer no corpo
A ansiedade social não acontece apenas nos pensamentos.
Entre os sintomas físicos associados ao transtorno estão:
palpitações;
tremores;
suor intenso;
náusea;
rubor;
sensação de mal-estar diante de situações sociais.
Também podem surgir ansiedade antecipatória, medo constante de avaliações negativas, dificuldade de fazer contato visual e forte tendência a evitar lugares ou encontros sociais.
A intensidade varia de pessoa para pessoa.
Por isso, um diagnóstico não deve ser feito com base apenas em uma lista de sintomas. A avaliação precisa considerar duração, frequência e impacto na vida cotidiana.
Felca também falou sobre sua relação problemática com o álcool
Outro ponto sensível do depoimento foi a revelação de que o influenciador passou a recorrer ao álcool como forma de tentar suportar determinadas situações sociais.
Segundo ele, o comportamento evoluiu para uma relação prejudicial com a bebida.
A associação merece atenção.
O NIMH aponta que o transtorno de ansiedade social pode ocorrer juntamente com problemas relacionados ao uso de álcool ou outras substâncias. A OMS também observa que transtornos de ansiedade estão associados a maior risco de transtornos por uso de substâncias. Instituto Nacional de Saúde Mental
O alívio temporário não representa tratamento e pode adicionar um segundo problema a uma condição que já provoca sofrimento.
O silêncio pode durar anos
Um dos aspectos mais difíceis do transtorno é que justamente aquilo que poderia ajudar — procurar alguém, conversar, pedir apoio — pode se tornar assustador para quem vive com ansiedade social.
O NIMH observa que pessoas com o transtorno podem ser menos propensas a procurar atendimento e que, em alguns casos, a condição acaba identificada apenas quando outro problema leva o paciente ao sistema de saúde. Instituto Nacional de Saúde Mental
Isso ajuda a explicar por que a fobia social pode permanecer escondida durante tanto tempo.
A pessoa pode continuar estudando, trabalhando ou até aparecendo diante de milhares de pessoas enquanto enfrenta um sofrimento que quem está ao redor dificilmente percebe.
No caso de Felca, esse contraste se tornou ainda mais evidente por sua profissão.
Existe tratamento
Apesar do impacto que pode provocar, transtorno de ansiedade social é tratável.
A Terapia Cognitivo-Comportamental, conhecida como TCC, está entre as abordagens com melhor respaldo científico para o tratamento. Ela trabalha pensamentos, comportamentos e respostas de ansiedade associados às situações temidas. Instituto Nacional de Saúde Mental
Uma das técnicas utilizadas pode envolver exposição gradual e estruturada às situações evitadas, sempre de acordo com o caso e preferencialmente acompanhada por profissional capacitado.
Em algumas situações, médicos também podem indicar tratamento medicamentoso. A decisão depende da avaliação clínica e deve ser individualizada. Instituto Nacional de Saúde Mental
O ponto central é que tratamento não significa simplesmente mandar alguém “enfrentar o medo”.
A recuperação costuma exigir tempo, acompanhamento e construção progressiva de segurança.
Felca anuncia tentativa de retomar a própria vida social
Ao final do vídeo, o influenciador apresentou um projeto pessoal chamado #SimFel.
A proposta é passar três meses tentando aceitar oportunidades sociais que anteriormente recusaria por medo ou desconforto, documentando parte dessa trajetória. Felca também anunciou a intenção de realizar palestras gratuitas sobre bullying em escolas.
A iniciativa, contudo, não deve ser interpretada como uma fórmula de tratamento para outras pessoas.
Especialistas destacam que exposição a situações que provocam ansiedade precisa respeitar limites individuais e, quando integra tratamento, costuma ocorrer de forma gradual e estruturada.
Cada pessoa possui uma história diferente.
O relato deixa uma discussão maior sobre bullying
Talvez uma das partes mais tristes da história seja perceber que experiências ocorridas muitos anos antes podem continuar presentes na vida adulta.
Bullying frequentemente é tratado como uma fase passageira da escola. Para quem sofre agressões e humilhações repetidas, porém, as consequências emocionais podem permanecer muito depois do fim das aulas.
Isso não significa que toda vítima desenvolverá um transtorno mental.
Significa que situações repetidas de violência e humilhação não devem ser minimizadas.
O relato de Felca transforma uma história individual em uma discussão que envolve escolas, famílias e toda uma geração que cresceu ouvindo que determinados comportamentos eram apenas “brincadeiras”.
Por trás da tela, havia alguém tentando conseguir viver normalmente
A repercussão do vídeo talvez revele justamente aquilo que as redes sociais escondem com facilidade.
Número de seguidores não impede ansiedade.
Humor não impede sofrimento.
Sucesso profissional não significa ausência de vulnerabilidade.
O transtorno de ansiedade social pode fazer uma conversa simples, um encontro ou uma saída de casa parecerem obstáculos enormes para quem convive com a condição.
E talvez essa seja a parte mais importante do relato de Felca: lembrar que nem todo sofrimento é visível.
Para quem enfrenta sintomas persistentes que começam a limitar estudos, trabalho, relações ou atividades cotidianas, buscar avaliação de um profissional de saúde mental pode ser um passo importante. Com acompanhamento adequado, pessoas com transtorno de ansiedade social podem controlar os sintomas e recuperar qualidade de vida.
Repórter