Menopausa aparece em apenas 12% dos prontuários médicos, revela estudo
Redação · Repórter
Publicado em ·5 min de leitura
Menopausa quase não aparece nos prontuários médicos e falha pode prejudicar cuidados com a saúde, aponta estudo
Pesquisa com quase 240 mil mulheres mostra que apenas 12% dos prontuários registravam a menopausa; ausência de informações pode dificultar estudos e acompanhamento de riscos cardiovasculares, ósseos e de saúde mental.
A menopausa, uma das principais transições da saúde feminina, ainda é pouco registrada nos prontuários médicos. Um amplo levantamento realizado nos Estados Unidos revelou que somente 12% dos registros eletrônicos analisados mencionavam a menopausa, mesmo quando muitas pacientes afirmavam já estar passando por essa fase da vida.
O dado chama atenção porque a menopausa não representa apenas o fim dos ciclos menstruais. A queda hormonal associada ao período pode provocar mudanças importantes no organismo e influenciar aspectos como saúde cardiovascular, densidade óssea, sono, metabolismo, memória e bem-estar emocional.
A ausência dessas informações nos sistemas médicos pode dificultar tanto o acompanhamento individual das pacientes quanto a realização de grandes pesquisas sobre a saúde das mulheres.
Estudo analisou prontuários de quase 240 mil mulheres
Pesquisadores ligados à Universidade do Colorado Anschutz, nos Estados Unidos, analisaram os prontuários eletrônicos de quase 240 mil mulheres participantes de um grande programa nacional de pesquisa em saúde.
O levantamento comparou os registros médicos com informações fornecidas pelas próprias participantes em questionários.
O resultado revelou uma diferença expressiva.
Embora mais da metade das mulheres analisadas tivesse informado que estava passando ou já havia passado pela menopausa, apenas cerca de 12% dos prontuários médicos apresentavam algum registro relacionado à condição.
A pesquisa foi publicada na revista científica Menopause.
Idade da menopausa também costuma ficar fora dos registros
Outro problema identificado pelos pesquisadores foi a falta de informações sobre quando a menopausa começou.
A idade em que essa transição acontece pode ser clinicamente relevante.
Embora exista uma faixa considerada normal, entrar na menopausa mais cedo ou mais tarde pode estar associado a diferenças nos riscos de determinadas doenças e na maneira como o organismo envelhece.
Uma mulher pode, por exemplo, entrar naturalmente na menopausa aos 45 anos, enquanto outra pode passar pela mesma transição aos 54.
As duas situações podem estar dentro da normalidade, mas conhecer essa informação permite que profissionais de saúde acompanhem melhor determinados indicadores ao longo dos anos.
Sintomas também desaparecem dos prontuários
O problema não se limita ao registro da menopausa.
Sintomas frequentemente associados ao período também aparecem pouco nos sistemas médicos.
Entre eles estão:
ondas de calor;
alterações do sono;
dificuldade de concentração;
mudanças de humor;
ressecamento vaginal;
alterações metabólicas;
perda de massa óssea.
A intensidade desses sintomas varia significativamente entre as mulheres.
Algumas atravessam a transição com poucas alterações perceptíveis, enquanto outras enfrentam sintomas capazes de comprometer o sono, o trabalho e a qualidade de vida.
Por que registrar a menopausa é importante?
Embora seja um processo natural do envelhecimento e não uma doença, a menopausa representa um marco clínico importante.
Durante essa fase ocorre uma redução na produção de hormônios como o estrogênio, substância que participa de diferentes funções do organismo feminino.
A mudança hormonal pode afetar o funcionamento cardiovascular, o metabolismo e a estrutura óssea.
Por isso, saber quando a menopausa ocorreu pode fornecer informações importantes para o acompanhamento médico ao longo da vida.
Saúde cardiovascular merece atenção
A transição para a menopausa também coincide com mudanças importantes em fatores relacionados à saúde cardiovascular.
Durante a perimenopausa — período que antecede a menopausa — podem ocorrer alterações na distribuição de gordura corporal, colesterol e pressão arterial.
Esses fatores tornam especialmente importante o acompanhamento de indicadores como:
pressão arterial;
colesterol;
glicemia;
peso e composição corporal;
histórico familiar de doenças cardiovasculares.
O acompanhamento deve ser individualizado e considerar o histórico de cada paciente.
Menopausa também está ligada à saúde dos ossos
A redução dos níveis de estrogênio pode acelerar a perda de massa óssea.
Com o passar dos anos, essa alteração pode aumentar o risco de osteopenia e osteoporose, condições que deixam os ossos mais frágeis e aumentam a possibilidade de fraturas.
Por esse motivo, informações sobre o início da menopausa podem ajudar médicos a avaliar melhor quando determinados exames ou medidas preventivas devem ser considerados.
Falta de informações prejudica pesquisas
Os prontuários médicos eletrônicos representam uma das maiores fontes de dados para estudos modernos de saúde pública.
Com milhões de registros, pesquisadores conseguem identificar padrões que dificilmente seriam observados em estudos menores.
No caso da menopausa, uma documentação adequada poderia ajudar cientistas a compreender melhor questões como:
quem apresenta sintomas mais intensos;
quanto tempo esses sintomas permanecem;
relação entre menopausa e doenças cardiovasculares;
impacto na saúde óssea;
alterações de memória e saúde mental;
influência de renda e acesso à assistência médica;
diferenças entre grupos populacionais.
Quando a informação simplesmente não aparece no prontuário, boa parte dessa capacidade de análise é perdida.
Por que a menopausa é tão pouco registrada?
Os pesquisadores ainda não identificaram uma explicação única para o problema.
Uma das hipóteses é justamente o fato de a menopausa ser considerada uma transição fisiológica natural, e não uma doença.
Por isso, profissionais podem abordar os sintomas durante consultas sem necessariamente registrar formalmente a condição no sistema.
Também pode haver diferenças entre especialidades médicas, instituições e sistemas de prontuário eletrônico.
O estudo reforça a necessidade de desenvolver formas mais padronizadas de registrar informações relacionadas à saúde feminina.
Mais dados podem significar melhor acompanhamento
Melhorar o registro da menopausa não significa transformar uma etapa natural da vida em doença.
O objetivo é garantir que uma informação potencialmente importante para a saúde da mulher não desapareça ao longo do histórico médico.
Registrar a idade em que a menopausa começou, os principais sintomas e outros fatores associados pode ajudar profissionais a compreender melhor a trajetória de saúde de cada paciente.
Ao mesmo tempo, uma base de dados mais completa pode permitir que pesquisadores respondam perguntas que ainda permanecem abertas sobre uma fase da vida que atinge milhões de mulheres em todo o mundo.
A conclusão do estudo coloca em evidência um problema aparentemente simples, mas com grande impacto: um dos principais marcos da saúde feminina ainda permanece praticamente invisível nos prontuários médicos.
Repórter