Nova rodada de ataques amplia tensão no Oriente Médio, derruba o tráfego no Estreito de Ormuz e aumenta o temor de que o conflito provoque uma crise global de energia e inflação.
O confronto entre Estados Unidos e Irã entrou nesta quinta-feira, 10 de setembro, em mais uma etapa de escalada, aumentando o risco de que uma guerra inicialmente concentrada entre os dois países comprometa importantes rotas internacionais de petróleo e produza consequências econômicas muito além do Oriente Médio.
Nas últimas horas, os mercados passaram a acompanhar com preocupação não apenas os ataques diretos entre Washington e Teerã, mas também a movimentação de grupos aliados ao Irã em outras regiões.
O resultado já pode ser observado no preço da energia.
O petróleo Brent fechou a sessão em aproximadamente US$ 107,63 por barril, após subir mais de 6%, enquanto o petróleo norte-americano WTI terminou próximo de US$ 102,48. São níveis que aumentam a pressão sobre combustíveis, transporte e inflação em diversas economias.
Ataques contra navios ampliam tensão no Golfo
A escalada ganhou força depois que forças iranianas atacaram embarcações na região próxima ao Estreito de Ormuz, em resposta a operações norte-americanas contra petroleiros iranianos.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, dez embarcações foram atacadas em uma das maiores ondas de ações contra o transporte marítimo desde o início desta fase do conflito.
A reação aconteceu depois que forças dos Estados Unidos destruíram cinco petroleiros iranianos.
Com os dois lados elevando a intensidade das ações, o transporte comercial na região tornou-se cada vez mais limitado e arriscado.
O Estreito de Ormuz possui importância estratégica mundial porque conecta o Golfo Pérsico ao Oceano Índico e historicamente concentra uma parcela relevante do petróleo transportado internacionalmente.
Os números desta semana mostram a dimensão da ruptura.
Na quarta-feira, apenas sete embarcações registraram passagem pelo estreito, contra uma média recente de aproximadamente 14. Nenhum navio transportando gás natural liquefeito foi registrado atravessando a região naquele período.
Quando uma rota dessa importância funciona abaixo de sua capacidade normal, o problema rapidamente deixa de ser apenas militar.
Passa a ser econômico.
Uma segunda rota estratégica também entra no radar
Enquanto Ormuz permanece sob forte pressão, outra frente preocupa mercados e governos.
Os houthis, grupo apoiado pelo Irã no Iêmen, avançaram pela costa do Mar Vermelho e tomaram a estratégica cidade portuária de Mocha.
O avanço aproxima o grupo do Estreito de Bab el-Mandeb, passagem marítima que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e constitui outra rota fundamental para o comércio internacional e para o transporte de energia.
A situação cria um cenário especialmente delicado.
De um lado está Ormuz, fundamental para as exportações energéticas do Golfo.
Do outro está Bab el-Mandeb, acesso essencial ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez.
Se ambas as regiões sofrerem interrupções prolongadas simultaneamente, navios poderão ser obrigados a procurar trajetos mais longos e caros, aumentando fretes, seguros marítimos e o custo final das mercadorias.
Trump aumenta pressão sobre Teerã
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a elevar o tom contra o governo iraniano.
Washington mantém operações militares e pressão econômica contra Teerã enquanto novas ameaças são feitas contra instalações estratégicas iranianas.
Ao mesmo tempo, o Irã demonstra que pretende aumentar o custo econômico e militar da ofensiva norte-americana, principalmente explorando sua capacidade de interferir no transporte marítimo do Golfo e utilizando aliados regionais.
O resultado é uma dinâmica perigosa: cada ataque gera uma resposta e cada resposta aumenta a possibilidade de uma nova ação ainda maior.
Esse mecanismo reduz gradualmente o espaço para uma saída diplomática rápida.
Guerra já começa a chegar ao bolso
Os efeitos econômicos começam a aparecer.
Além da disparada do petróleo, os principais índices de Wall Street fecharam esta quinta-feira em queda. O S&P 500 recuou 0,6%, o Dow Jones perdeu aproximadamente 316 pontos e o Nasdaq também caiu 0,7%.
O motivo vai além do medo provocado pela guerra.
O petróleo caro possui capacidade de contaminar praticamente toda a economia.
Combustível mais caro aumenta o custo de transportar alimentos e mercadorias. Empresas gastam mais para produzir e distribuir produtos. Companhias aéreas enfrentam despesas maiores. Famílias passam a gastar mais para abastecer seus veículos.
Nos Estados Unidos, os preços no atacado já apresentaram nova aceleração, com forte contribuição da energia. A inflação anual ao produtor chegou a 5,4% em agosto, enquanto o diesel registrou forte avanço.
Isso cria um problema adicional para os bancos centrais.
Se a energia continuar subindo, o combate à inflação pode exigir juros elevados por mais tempo — justamente em um momento de maior incerteza econômica.
O mundo teme uma guerra que deixe de ser regional
Outro ponto de preocupação é a possibilidade de novos países serem arrastados para o conflito.
Os ataques houthis contra a Arábia Saudita já colocaram os países da região diante de decisões cada vez mais difíceis sobre sua participação militar.
O Paquistão declarou nesta quinta-feira que, apesar de possuir compromissos de defesa com Arábia Saudita e Turquia, nenhuma resposta militar conjunta havia sido discutida até aquele momento.
A declaração demonstra o cuidado dos governos da região.
Entrar diretamente na guerra pode provocar uma expansão imprevisível do confronto. Permanecer completamente de fora, entretanto, torna-se mais complicado caso instalações, cidades ou rotas comerciais desses países continuem sendo atacadas.