Nas últimas semanas, cresceu em São Paulo um surto alarmante de intoxicações por metanol em bebidas alcoólicas adulteradas. Até o momento, foram confirmadas duas mortes, sendo uma na capital e outra em São Bernardo do Campo, e mais uma vítima suspeita, totalizando três casos em investigação. Além disso, há diversas internações de pessoas que consumiram bebidas contaminadas.
As autoridades estaduais informam que, desde junho, já foram confirmados seis casos de intoxicação por metanol. A capital paulista possui dez casos em investigação, todos relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas adulteradas. Os produtos consumidos incluíam destilados como gin, vodca e uísque — muitos deles aparentavam lacre e embalagem legítimos, dificultando a identificação da adulteração.
Um dos casos relatados envolveu um jovem de 23 anos que ingeriu uma bebida supostamente de marca confiável, com garrafa lacrada, sem indícios visíveis de adulteração. No dia seguinte, ele amanheceu sem enxergar. Felizmente, parte de sua visão voltou após tratamento, mas ele ficou hospitalizado por três dias para desintoxicação. Já um de seus amigos segue internado há mais de um mês com gravíssimos danos à saúde.
As autoridades já apreenderam aproximadamente 117 garrafas suspeitas em bares e estabelecimentos de São Paulo para perícias. As operações ocorrem nos distritos policiais da capital, especialmente nos distritos 16º, 48º e 78º, além da região da Mooca.
A gravidade do metanol no organismo
O metanol (álcool metílico) é uma substância química utilizada principalmente como solvente industrial, em combustíveis, tintas e outros produtos. Ele não deve constar em bebidas destinadas ao consumo humano.
Quando ingerido, o fígado metaboliza o metanol convertendo-o em formaldeído e ácido fórmico, substâncias altamente tóxicas. Essas substâncias atacam o sistema nervoso central e os nervos ópticos, provocando sintomas como:
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Visão turva ou perda da visão
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Náuseas, vômitos, dor abdominal
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Confusão mental, sonolência, fraqueza
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Convulsões e coma
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Em casos graves, falência de órgãos e morte
O tempo para o aparecimento dos sintomas costuma ser de 12 a 24 horas após a ingestão, mas pode variar.
Mesmo pequenas doses de metanol já podem causar danos irreparáveis — especialmente à visão e ao sistema nervoso. Quanto mais rápido o atendimento médico após o início dos sintomas, maiores as chances de mitigação dos danos.
Suspeitas e teorias por trás do esquema
Em nota, a Associação Brasileira de Combate à Falsificação (ABCF) levantou a hipótese de que o metanol usado nas bebidas adulteradas seja o mesmo que vinha sendo utilizado ilegalmente no contrabando ou adulteração de combustíveis. Alguns esquemas criminosos teriam importado o produto para fraudar combustíveis, e parte desse material estaria sendo desviado para destilarias clandestinas e uso em bebidas adulteradas.
Esse possível vínculo reforça a complexidade do problema, que extrapola o âmbito do consumo e atinge redes de falsificação e crime organizado.
Recomendações e como se proteger
Em razão da gravidade da situação, órgãos federais e estaduais já emitiram alertas técnicos e orientações. Entre as principais recomendações para consumidores e comerciantes:
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Adquira bebidas somente em estabelecimentos confiáveis, com nota fiscal, documento legal, lacre de segurança e rotulagem completa.
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Desconfie de preços extremamente baixos ou de bebidas oferecidas “por fora” ou sem identificação clara.
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Não consuma bebidas de origem duvidosa ou em locais suspeitos.
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Ao primeiro sinal de sintomas (visão embaçada, náuseas, desconforto abdominal ou alteração mental), procure atendimento médico imediatamente e informe o consumo de bebida alcoólica.
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Estabelecimentos que suspeitarem que alguma bebida esteja adulterada devem interromper a venda, isolar o lote e preservá-lo para perícia, além de notificar a Vigilância Sanitária local, a Polícia Civil e o Procon.
Já as autoridades devem intensificar a fiscalização nos bares, adegas, distribuidoras e atacadistas, além de promover investigações rigorosas sobre a origem do metanol adulterado.