Imagens divulgadas neste fim de semana mostram Alexandre de Moraes e a esposa desembarcando de aeronave associada ao empresário Daniel Vorcaro; registro confronta declaração anterior do ministro, enquanto análise do caso permanece suspensa no Supremo.
A crise envolvendo o Banco Master ganhou um novo capítulo neste domingo e passou a exercer ainda mais pressão sobre o Supremo Tribunal Federal. Um vídeo divulgado inicialmente pelo jornal O Globo e repercutido por veículos como Folha de S.Paulo e Metrópoles mostra o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jato executivo no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, em agosto de 2025. A aeronave foi relacionada a empresas ligadas ao então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro.
O registro ganhou importância porque confronta diretamente uma declaração anterior do gabinete de Moraes.
Em abril de 2026, quando começaram a surgir informações sobre viagens realizadas em aeronaves relacionadas ao empresário, o gabinete do ministro afirmou de forma categórica que Moraes “jamais” havia viajado em avião de Daniel Vorcaro. O vídeo agora divulgado mostra Moraes desembarcando, ao lado da esposa, de uma das aeronaves apontadas nas reportagens como vinculadas ao grupo empresarial relacionado ao banqueiro.
Diante dessa evidência, é possível afirmar que o registro contradiz materialmente a versão apresentada anteriormente pelo gabinete. Classificar juridicamente o episódio como uma “mentira”, porém, envolve uma conclusão sobre intenção que não foi estabelecida pelas investigações divulgadas até o momento.
A explicação posteriormente apresentada pelo escritório Barci de Moraes é que serviços de táxi aéreo da Prime Aviation foram contratados regularmente e que a escolha específica da aeronave caberia à empresa operadora. O escritório também afirma que Daniel Vorcaro não estava presente nos voos realizados pelo casal e nega que o uso das aeronaves demonstrasse uma relação pessoal com o empresário.
Isso não elimina a contradição entre a primeira declaração pública e o registro agora revelado, mas adiciona uma diferença relevante: viajar em uma aeronave ligada comercialmente a Vorcaro não é necessariamente o mesmo que viajar acompanhado do banqueiro ou receber dele pessoalmente o transporte.
Relação entre Moraes, Vorcaro e escritório da família está sob escrutínio
O episódio do avião não aparece isoladamente.
Documentos e mensagens analisados pela Polícia Federal indicaram contatos entre Vorcaro e Moraes, enquanto o Banco Master manteve contrato milionário com o escritório de advocacia de Viviane Barci. Segundo informações publicadas pela Folha, o contrato, firmado em 2024, teria valor previsto de aproximadamente R$ 131 milhões, com dezenas de milhões de reais pagos antes da liquidação do banco. Moraes nega irregularidades e afirma não ter atuado em processos relacionados ao banco ou ao empresário.
Também foram encontradas mensagens atribuídas a Vorcaro enviadas a Moraes pouco antes da prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Segundo a documentação divulgada, as respostas do ministro não constam integralmente no material recuperado. Moraes negou ter mantido a conversa nos termos apresentados pelas reportagens.
Esses elementos vêm alimentando questionamentos sobre eventual conflito de interesses, mas não equivalem, por si só, à comprovação de crime cometido pelo ministro.
E o que acontece no STF hoje?
Até esta segunda-feira, 21 de setembro, o Supremo não concluiu a análise sobre a abertura ou o prosseguimento de investigação envolvendo Moraes no caso Master.
Na sessão de 15 de setembro, o ministro Flávio Dino pediu vista quando o plenário discutia uma questão processual sobre a possibilidade de analisar conjuntamente duas petições relacionadas ao caso. O mérito das acusações contra Moraes não chegou a ser julgado. O pedido de vista interrompeu a discussão e pode manter a matéria suspensa por até 90 dias.
Uma sessão que deveria discutir outro relatório relacionado ao caso, envolvendo o ministro André Mendonça, também foi suspensa em meio ao impasse interno sobre como as diferentes investigações devem tramitar.
Portanto, apesar da repercussão do novo vídeo neste fim de semana, não existe até agora uma decisão do plenário do STF concluindo que Moraes praticou irregularidade no caso Master.
O que existe é uma investigação com novos elementos, divergências internas no Supremo e uma pressão política crescente para que as relações reveladas sejam esclarecidas.
Crise começa a atingir a própria imagem do Supremo
O caso deixou de ser apenas uma investigação sobre um banco.
As apurações relacionadas ao Master passaram a alcançar empresários, políticos, advogados e integrantes do Judiciário. Reportagens baseadas no material recolhido pela Polícia Federal apontam referências a diferentes ministros do Supremo, embora a natureza e a relevância jurídica de cada relação variem consideravelmente.
A tensão também chegou ao Congresso. Nesta segunda-feira, levantamento da CNN Brasil apontou que existem 84 propostas relacionadas a mudanças na estrutura ou nas regras do STF tramitando no Legislativo, incluindo discussões sobre mandato, nomeação de ministros e mecanismos de controle. A crise provocada pelo caso Master aumentou a atenção sobre essas propostas, embora elas sejam independentes das investigações criminais em andamento.
Há ainda um componente eleitoral importante. A investigação se desenvolve a poucas semanas da eleição presidencial, e diferentes grupos políticos vêm utilizando revelações do caso em suas narrativas de campanha. Esse contexto exige separar cuidadosamente os fatos encontrados nas investigações das interpretações partidárias sobre eles.
O vídeo divulgado agora, entretanto, acrescenta um elemento objetivo à controvérsia: Moraes efetivamente aparece desembarcando da aeronave registrada nas reportagens, enquanto uma manifestação anterior de seu gabinete afirmava que ele jamais havia viajado em avião de Vorcaro.
A principal questão passa a ser, portanto, explicar de maneira completa como as viagens foram contratadas, quem pagou por elas, qual era a relação entre os envolvidos e por que a primeira versão apresentada publicamente foi formulada de maneira tão categórica.
As respostas a essas perguntas podem ser determinantes para esclarecer se o episódio representa apenas uma relação comercial indireta mal explicada ou se existem elementos juridicamente relevantes que ainda precisam ser investigados.