A Alemanha atravessa um dos momentos políticos mais delicados desde sua reunificação. A Alternativa para a Alemanha (AfD) conquistou uma vitória histórica nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt, no leste do país, colocando pela primeira vez uma força de extrema direita tão próxima de comandar um governo regional desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
O partido liderado no estado por Ulrich Siegmund obteve cerca de 44% dos votos e conquistou 39 das 83 cadeiras do Parlamento estadual. O desempenho deixou a AfD a apenas três assentos da maioria absoluta e muito à frente da União Democrata Cristã (CDU), partido do chanceler Friedrich Merz. Os resultados oficiais também mostram participação eleitoral de 77,8%, indicando elevada mobilização do eleitorado.
O resultado possui um peso histórico difícil de ignorar. A Alemanha construiu sua ordem política do pós-guerra sobre uma forte rejeição ao extremismo que levou o país ao regime de Adolf Hitler e à Segunda Guerra Mundial. Por décadas, partidos tradicionais mantiveram uma espécie de “cordão sanitário”, conhecido no país como Brandmauer, recusando coalizões com forças consideradas extremistas.
Esse muro político agora enfrenta seu maior teste.
A AfD ainda não assumiu o governo da Saxônia-Anhalt. Para isso, precisaria obter apoio de outros parlamentares ou estabelecer alguma forma de cooperação com outra legenda. O BSW, partido de Sahra Wagenknecht, conquistou cinco cadeiras e tornou-se uma das peças que poderiam alterar a matemática parlamentar. A possibilidade de cooperação entre as duas forças passou a ser observada atentamente em Berlim.
Por que a AfD cresceu tanto
O avanço não ocorreu apenas por causa da imigração, tema historicamente explorado pelo partido.
A eleição revelou uma combinação mais profunda de insatisfação econômica, desconfiança nas instituições e ressentimento especialmente forte no território da antiga Alemanha Oriental.
Uma análise publicada pelo Outras Palavras destaca que 59% dos trabalhadores não qualificados e 65% dos entrevistados que declararam enfrentar dificuldades financeiras apoiaram a AfD. O sentimento de abandono no leste também aparece de forma expressiva: 73% dos entrevistados disseram sentir que são tratados como cidadãos alemães de segunda classe.
O partido conseguiu transformar esse descontentamento em discurso antissistema. Imigração, perda de competitividade industrial, custo de vida, burocracia e críticas à política externa de Berlim passaram a compor uma narrativa segundo a qual os partidos tradicionais deixaram de representar parte significativa da população.
O fenômeno já ultrapassa as fronteiras da Saxônia-Anhalt. Na eleição federal de 2025, a AfD havia recebido 20,8% dos votos nacionais e conquistado 152 cadeiras no Bundestag, mais que dobrando sua votação de 2021.
O resultado estadual de agora mostra que, em partes do leste alemão, esse crescimento acelerou de maneira ainda mais intensa.
O fantasma do passado alemão volta ao debate
A dimensão histórica torna o episódio especialmente sensível.
A AfD não pode ser simplesmente chamada de “Partido Nazista”, já que se trata de uma organização política diferente do antigo NSDAP de Adolf Hitler. Entretanto, autoridades e serviços de inteligência alemães classificaram a legenda como força de extrema direita, e integrantes de determinadas alas mantiveram relações com grupos radicalizados.
O próprio Siegmund participou, em 2023, de uma reunião em Potsdam na qual integrantes da extrema direita discutiram propostas de “remigração”, expressão utilizada por esses movimentos para defender expulsões em larga escala de estrangeiros e determinadas populações de origem imigrante.
É justamente essa combinação entre nacionalismo, imigração, identidade alemã e contestação às instituições que provoca comparações históricas — embora equiparar automaticamente a AfD ao regime nazista seja uma simplificação que não descreve corretamente a situação política atual.
O resultado pode reverberar por toda a Europa
A eleição da Saxônia-Anhalt dificilmente ficará restrita ao estado.
A Alemanha é a maior economia da União Europeia e possui enorme influência sobre decisões relacionadas a defesa, imigração, energia, política industrial, euro e guerra da Ucrânia. Uma transformação profunda na política alemã inevitavelmente atingiria o restante do continente.
A primeira consequência pode ocorrer dentro da própria Alemanha. Partidos tradicionais poderão sofrer pressão para endurecer políticas migratórias e modificar suas posições econômicas numa tentativa de recuperar eleitores da AfD.
A segunda envolve a União Europeia. A AfD mantém posições muito mais críticas à integração europeia que o atual governo e setores do partido defendem inclusive uma ruptura com estruturas centrais da UE e do euro. O presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, alertou nesta quinta-feira para possíveis consequências econômicas do crescimento dessas forças, incluindo dificuldades para atrair investimentos e trabalhadores qualificados.
Existe ainda um terceiro ponto particularmente sensível: Rússia e Ucrânia.
A AfD defende a interrupção ou redução do apoio alemão à Ucrânia e a retomada de relações mais próximas com Moscou. Uma eventual expansão nacional do partido poderia alterar significativamente uma das principais políticas estratégicas europeias desde a invasão russa da Ucrânia.
Para a OTAN, isso também seria relevante. A Alemanha se tornou uma das peças fundamentais do esforço europeu de rearmamento e da sustentação política e militar da Ucrânia. Uma futura mudança de orientação em Berlim poderia gerar divisões dentro da própria aliança.
Alemanha e Rússia vivem simultaneamente uma grave crise diplomática
Curiosamente, a vitória da AfD acontece justamente quando as relações diplomáticas entre Alemanha e Rússia atingem outro ponto de forte deterioração.
Mas é importante separar os acontecimentos: o fechamento dos consulados não foi provocado pela vitória eleitoral da AfD.
O governo alemão determinou o fechamento do Consulado-Geral da Rússia em Bonn e de um centro cultural russo em Berlim depois de acusar Moscou de envolvimento em uma tentativa de ataque com drones contra o aeroporto de Leipzig/Halle. A Rússia rejeitou as acusações.
Moscou respondeu poucos dias depois retirando a autorização de funcionamento do Consulado-Geral da Alemanha em São Petersburgo, que deverá encerrar suas atividades até 18 de setembro, e determinando também o fechamento das unidades do Instituto Goethe em território russo.
Portanto, o movimento diplomático ocorreu nos dois sentidos: Berlim fechou a representação consular russa em Bonn e Moscou respondeu fechando a representação alemã em São Petersburgo.
A coincidência temporal, entretanto, torna o cenário político ainda mais complexo. Enquanto o governo de Friedrich Merz intensifica o confronto diplomático com Moscou e mantém apoio à Ucrânia, cresce eleitoralmente dentro da Alemanha justamente uma força política que defende reaproximação com a Rússia.
Uma eleição regional com consequências potencialmente globais
A Saxônia-Anhalt possui apenas uma fração da população alemã e seu governo estadual não determina sozinho a política externa do país. Mesmo assim, o resultado pode representar um ponto de inflexão.
O que antes parecia uma barreira política praticamente intransponível — uma força de extrema direita aproximando-se do comando de um governo alemão — tornou-se uma possibilidade concreta.
A verdadeira questão agora não é apenas quem governará a Saxônia-Anhalt.
É até onde esse movimento poderá avançar na Alemanha.
A próxima eleição federal está prevista para 2029. Caso a AfD consiga transformar resultados como o da Saxônia-Anhalt em crescimento nacional, a Alemanha poderá chegar à próxima disputa eleitoral diante de uma configuração política completamente diferente.
E uma mudança dessa dimensão em Berlim dificilmente permaneceria dentro das fronteiras alemãs. Ela poderia alterar o equilíbrio político da União Europeia, a estratégia ocidental para a Ucrânia, as relações com Moscou e até mesmo o futuro da integração europeia.
Por isso, a vitória da AfD é muito mais do que uma eleição regional.
É um sinal de que uma das barreiras políticas mais simbólicas construídas pela Alemanha depois de 1945 está sendo submetida ao seu teste mais difícil em décadas.