Um impressionante fóssil de tartaruga gigante foi descoberto por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (Ufac) nas margens do Rio Acre, no município de Assis Brasil. A carapaça fossilizada, com mais de dois metros de comprimento, está em excelente estado de preservação e deve seguir nos próximos dias para o Laboratório de Paleontologia da universidade, onde será analisada em detalhes. A descoberta reforça o potencial do Acre como uma das regiões mais promissoras para estudos sobre a fauna que habitou a Amazônia em tempos remotos.
Segundo os cientistas envolvidos, o fóssil pode ter pertencido a uma espécie que viveu há cerca de 13 milhões de anos, durante o período Mioceno. A área onde o fóssil foi encontrado é a mesma que já revelou vestígios do Purussaurus brasiliensis, um crocodiliano gigante que podia atingir mais de 12 metros de comprimento e dominava os ecossistemas aquáticos da região há aproximadamente 8 milhões de anos. Essa nova descoberta, portanto, contribui para ampliar o conhecimento sobre a diversidade e o porte da megafauna amazônica do passado.
Embora ainda não tenha sido possível confirmar a espécie exata da tartaruga, os primeiros indícios sugerem que possa se tratar de um exemplar da linhagem da Stupendemys geographicus — considerada a maior tartaruga de água doce que já existiu. Essa espécie viveu em regiões que hoje compreendem o sul da Venezuela e partes do Acre, e podia alcançar até 2,4 metros de comprimento, com um peso estimado de mais de uma tonelada.
Outra possibilidade considerada pelos pesquisadores é a relação com uma linhagem mais recente, como a Peltocephalus maturin, cujos fósseis foram encontrados anteriormente em Rondônia. Essa espécie teria vivido entre 40 mil e 9 mil anos atrás, em um período em que já havia presença humana na Amazônia. Estimativas indicam que os primeiros habitantes da região teriam chegado há cerca de 12.600 anos, o que levanta uma hipótese intrigante: tartarugas gigantes e humanos podem ter coexistido — e, talvez, interagido de alguma forma.
Estudos anteriores sugerem que esses grandes quelônios fizeram parte da dieta de populações humanas pré-históricas. Há registros fósseis que indicam o consumo desses animais durante o Pleistoceno, embora ainda não existam evidências diretas no Acre que comprovem essa relação. Os pesquisadores esperam que as análises mais aprofundadas do novo fóssil possam oferecer pistas adicionais sobre a cronologia da espécie e seu possível contato com os primeiros habitantes da região.
O achado é visto como um marco para a ciência brasileira, especialmente para a paleontologia amazônica. A carapaça bem preservada permitirá estudos detalhados sobre morfologia, dieta e hábitos da espécie, além de oferecer uma janela para compreender as transformações ambientais que ocorreram na região ao longo de milhões de anos. A descoberta também destaca a importância da conservação dos sítios paleontológicos da floresta, muitos dos quais ainda inexplorados e sujeitos à degradação por atividades humanas.
Com esse fóssil, o Acre reforça sua posição como um dos grandes celeiros da paleontologia nacional, com potencial para contribuir significativamente para o entendimento da história natural da América do Sul. Os cientistas esperam que essa e outras descobertas inspirem novos investimentos em pesquisa, educação e preservação, não apenas no estado, mas em toda a Amazônia.